“Tierra quemada” é um projeto de pesquisa e práticas artísticas transdisciplinares referentes à memória indígena e suas ressonâncias atuais no território uruguaio.

“Tierra quemada” é uma plataforma de design de conexões e interações entre arte contemporânea, ciências e os relatos contidos nas crônicas e tradições orais. As ações estão orientadas ao resgate, visibilização e re-significação da memória indígena, como contribuição à construção de um imaginário social multicultural, diverso e enriquecedor.
O nome do projeto se origina a partir da conexão conceitual e poética de duas ideias antagônicas. Em recentes pesquisas arqueológicas [1], se denomina “tierra quemada” os fragmentos de ninhos de formiga tacurú, utilizados como elementos termóforos para cocção de alimentos, presentes na composição dos montículos conhecidos como cerritos de indios. Por outro lado, “tierra quemada” é uma tática militar que consiste em destruir tudo o que possa ser útil para a sobrevivência do inimigo. Utilizamos este conceito como metáfora dos processos de destruição dos povos originários e as tentativas posteriores de negação e invisibilização de seu legado cultural.
A versão hegemônica da história uruguaia insiste mecanicamente em um discurso de negação e desprezo em relação ao legado das culturas indígenas. Tierra quemada propõe, a partir da sensibilidade artística, contribuir com ferramentas para recuperar esse cosmos negado por comodismo, ignorância e repetição de patrões mentais y preconceitos herdados do pensameento colonial. [2]
Tierra quemada é um dispositivo artístico em construção e, ao mesmo tempo, é a obra que se vai gerando a partir da acumulação e interação dos elementos, para gerar novas narrativas a partir do diálogo com o entorno e a memória.
O projeto é também um exercício de autoexploração realizada pelos autores, que recorre a diferentes formas de conhecimento. No desenvolvimento de uma “arqueologia pessoal” que motiva a experimentação com diferentes formatos e recursos expressivos. É o trabalho sobre a percepção sendo intervenida pelo território como entidade e pelas ressonâncias que o habitam.

Como obra em contínuo processo, Tierra quemada se desenvolve e se expande por meio de diversas ações interconectadas, como a criação de publicações em formato livro, digital, fanzine, obra gráfica; as pesquisas transdisciplinares e trabalho de campo; a participação em exposições e ativações artísticas, com ênfase na arte sonora e visual; o trabalho colaborativo com artistas, pesquisadores, instituições e comunidades culturais, e a realização de oficinas e laboratórios de sensibilização por meio da escrita, da escuta e da intervenção coletiva em dispositivos de exibição pública.
Iniciado por Matias Ygielka Rimbaud e Rafael Juárez Sarasqueta em 2022, o projeto contou com o apoio dos Fundos Regionais para a Cultura 2023 do Ministério de Educação e Cultura, o que possibilitou o trabalho de campo na região sul do território e a publicação do livro Tierra Quemada, memorias y resonancias (Pina Leuba Editora, 2023)
A partir da pesquisa histórica e arqueológica, e da memória oral presente nos relatos familiares e tradicionais, o livro propõe um encontro com o território e uma tentativa de reconstrução da memória pessoal e coletiva, a reescritura de uma terra invisibilizada, a crônica de uma viagem como busca de algo intransferível e o diálogo com o entorno.
O livro, de natureza híbrida, funciona também como um registro temporal de diferentes rotas de pesquisa e possíveis expansões artísticas a desenvolver.
O que diz esta paisagem, o solo que se move? O que dizem as pedras nestes lugares escolhidos? Estas questões dão origem à busca das razões que subjazem em nossa percepção da realidade, e o aprofundamento nas questões eternas, e ao mesmo tempo cambiantes, que nos preocupam –nossa origem, o sentido da vida, que possibilidade temos de entender e aprender o que é o mundo–. Para afrontar estas inquietudes existenciais e enigmas da história nacional, o convite é, em primeira instância, a escutar, tentar compreender o sentido a partir da qualidade sensível como esboçam os autores.

Tierra quemada é um exercício de dúvida, pausa e escuta, e graças a estes movimentos nos traz à memória, sob tantos nomes distintos, aquilo que havíamos vivido e havíamos esquecido.» (Fragmentos do prólogo, por Jairo Rojas Rojas)
Matías Ygielka Rimbaud (Montevidéu, 1987). Escritor, artista intermídia e pesquisador independente. Publicou na Espanha, Argentina, Portugal, EUA e Uruguai. Premiado no Uruguay e no exterior, participou de projetos de residência de escritura na Alemannha e Espanha. Vinculado a ações de literatura expandida, tem realizado intervenções de escritura no espaço público de diversas cidades do mundo. Sua obra de escritura visual foi mostrada em diferentes exposições e feiras de arte ibero-americanas. Publicou, entre outros, o manifesto La escritura sin escritor (Yaugurú, Uruguai, 2014) a nouvelle La máquina de dejar de escribir (Wu Wei, Argentina, 2016), e, recentemente, a obra conceitual You have traveled a second to the future (Paper View, Portugal, 2023). Desde 2015 co-dirige o selo CAS records, que funciona como plataforma de edição e curaduria de arte sonora e música sem classificação. Como artista intermídia, participou em diversos festivais uruguaios e internacionais. Sua obra sonora se encontra editada em diferentes selos da América Latina.
Rafael Juárez Sarasqueta (Montevidéu, 1966). Artista, escritor, designer gráfico. Publicou Bazar Limbo (2001), Cueros de culebra (2007), Sórdidos detalles a continuación (2011), Perro erizado de rayos (2012), Coronas de pelo rojo (2015), Libro de sombras (2018), Casa encantada (2019), La piel de metal (2020) e Tierra quemada (2023), assim como textos em revistas e antologias do Uruguay, Argentina, Espanha, Estados Unidos, Peru e México. Dirigiu os projetos audiovisuais Ciudad TXT, sobre escrituras e território, en Montevidéu (MVD TXT) e Cidade do México (CDMX TXT). Recebeu a Bolsa de Formação Eduardo Víctor Haedo, em 2018, e a Bolsa de Criação Artística Justino Zavala Muniz, em 2023, outorgadas pelo Ministério de Educação e Cultura do Uruguai. Integra Pinches Artistas, coletivo de artistas latino-americanos residentes em Montevidéu, e o Laboratorio Pina Leuba, plataforma de criação em que desenvolve projetos colaborativos e pessoais, como as oficinas Laboratório Nômade de Escritura, Pina Leuba Editora e o projeto transdisciplinar Casa de lo negro.
[1] “Foi proposto que a presença e abundância da terra queimada nos montículos seria a consequência da acumulação secular dos restos produzidos pelo uso de fornos de terra nos quais se utilizaram termóforos sedimentários de origem biogênica. Seu reconhecimento como artefatos aumenta nosso conhecimento sobre as técnicas utilizadas no processamento de alimentos em fornos de buraco. Sua acumulação secular nos aproxima a um fenômeno de outra ordem, a modificação do entorno.” Adaptado de Duarte, Christopher – Bracco Boksar, Roberto. La tierra quemada como artefacto en los montículos de India Muerta – Paso Barranca (Rocha, Uruguay) (2020)
[2] Adaptação de um fragmento do texto Hacia praderas sonoras de Jairo Rojas Rojas, publicado em Tierra Quemada, memorias y resonancias (Pina Leuba Editora, 2023)